O andarilho

Marcia Pires outubro 24, 2016 Nenhum Comentário
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beggarHá muitos anos, quando minhas filhas ainda eram pequenas, fui à papelaria comprar material escolar em razão do início das aulas. Era sábado, e na lojinha encontrei minha sogra. O local onde morávamos era uma cidade pequena na Grande S. Paulo. Eu escolhia os cadernos, lápis, lápis de cor e estava entretida nisso. Logo me dei conta de que um rapaz mal vestido importunava minha sogra. Ele a tratava com tal familiaridade, que achei que eles se conheciam, mas não era verdade.

– Ô, ô… e então? ele dizia enquanto cutucava o braço dela. Fiquei desconfiada, aquilo soava como se ele fosse assim… pegar a carteira dela e sair correndo. Prestando atenção, vi que não era o que ocorria.

– Ô, ô…

– Tá bom (ela respondeu)… olha eu te pago um lanche, mas vc tem que me esperar lá fora. Depois que eu terminar o que estou fazendo aqui eu pago um lanche pra vc. Ele não encrencou, ao contrário, saiu bem quieto de lá, e ficou aguardando do lado de fora da porta.

– A sra. o conhece? achei que sim.

– Não… não conheço. Ele fica pelo Centro da cidade andando pra lá e pra cá, meio jogado… Ele não é mau ou perigoso, só parece que não bate muito bem da cabeça.

Terminei a compra, e saímos juntas da loja. Ela encontrou ali o rapaz, e disse pra irem na lanchonete.

– Vou pagar um café com leite e um sanduíche pra ele. Depois nos vemos.

Nos despedimos e fui pra casa. Ponto. Cabou a história? Não!

Na segunda-feira, todos comentavam que tinha acontecido um acidente grave na linha do trem no domingo. O expresso sempre vinha em alta velocidade por ali, pois não parava na estação, e tinha partido ao meio, literalmente, um andarilho que circulava pela linha férrea. Sim, era aquele rapaz, cujo nome eu nunca soube.

Aquilo me acertou em cheio, me fez pensar muito. Quantas vezes a gente simplesmente descarta quem pede algo, sem sequer ouvir do que se trata? se é possível ajudar? Abordados por alguem meio mal-vestido, meio estranho, nossa reação imediata é sempre fechar. Fechar a atenção, fechar o acolhimento, a porta, a cara. E tem tanto pilantra, mesmo, que a gente acaba se sentido justificada. Será que é simples assim?

Talvez aquela fosse a última coisa que ele comeu. Pode ser que tenha pedido uma refeição a alguem mais tarde, e essa pessoa reagisse como eu faria naquela época: eu (confesso!) não teria dado a mínima.

Esse acontecimento trouxe minha atenção ao presente de forma diferente: primeiro procurar saber do que se trata, sem bater a porta antes de ouvir. Sorte a dele, que encontrou quem estendesse a mão, um café com leite, um sanduíche pouco antes do derradeiro passeio pela linha férrea.

Sorte maior a da minha sogra. Sim, pois esta com certeza foi uma das últimas, ou a última vez que alguem teve a oportunidade de fazer algo por ele. Com nosso sonambulismo habitual, perdemos inúmeras oportunidades de ir resgatando nosso Karma e avançar espiritualmente.

É um grande equívoco a gente achar que só pode resgatar “aquela negatividade karmica toda” ou progredir espiritualmente se encontrarmos a cura do câncer, formos à Lua, projetarmos edifícios magníficos, nos tornarmos cirurgiões, juízes, presidentes da república. E como a maioria de nós não tem essas funções e possibilidades (e mesmo os que têm!), acaba que raramente nos damos ao trabalho de fazer algo, de ouvir, de acolher.

A possibilidade de avanço e resgate está sempre próxima de nós. Fiquemos mais atentos. Fiquemos no presente.

Marcia Pires

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